Integração de refugiados no Entroncamento é uma 'lição de grande maturidade' (c/vídeo) | Médio Tejo (2022)

Muitos dos ucranianos entrevistados pelo mediotejo.net mostram-se positivamente surpreendidos com o acolhimento que tiveram na cidade do Entroncamento. Jorge Faria, presidente da Câmara Municipal, fala numa “lição de grande maturidade” por parte da sociedade no que toca à integração destas pessoas, até “porque aqui é uma orientação desde sempre: nós estamos cá para acolher, apoiar e enquadrar”.

REPORTAGEM/VIDEO:

O Entroncamento chegou a receber 62 pessoas (num total de 28 famílias), das quais 24 regressaram entretanto à Ucrânia, sendo que algumas delas inclusivamente já se encontravam enquadradas socialmente e até em termos laborais. Outras duas famílias decidiram ir depois fazer vida noutros concelhos. Neste momento, a cidade ferroviária é assim chamada de lar por um total de 33 pessoas, distribuídas entre 16 agregados familiares, e em que 10 delas são crianças.

Liudmila Klimmick (53 anos) a sua filha Mariia (16) – oriundas de Mykolaiv – e Inna Zimbitska (36) e o seu filho Kiril (15) – provenientes de Zhytomyr – fazem parte deste grupo de pessoas. Liudmila e Inna conheceram-se num centro de apoio a refugiados da Polónia e aí juraram não se separar mais.

Acabaram na cidade do Entroncamento porque era onde morava um amigo do marido de Liudmila, trazidas por um dos autocarros que a Comunidade Intermunicipal do Médio Tejo (CIMT) enviou para a Polónia com o objetivo de trazerem refugiados ucranianos para Portugal.

Antes que se questionem sobre os homens, esses tiveram de ficar para trás, pelo que que estas quatro pessoas tiveram de acenar uma última vez a maridos, pais e irmãos, sem saber o que o futuro reservava e quando os voltariam a ver. Situação esta, aliás, que ainda se mantém.

A única coisa a fazer é ir estabelecendo contacto através da internet – uma quase “missão impossível”, por a a rede estar sempre a falhar – e o descanso só chega quando recebem mensagens daqueles que deixaram para trás. Muitas vezes é apenas um “smile”, sinal de que “está tudo bem, ainda estamos vivos”.

Com pouco mais que as roupas que traziam no corpo e cheias de dúvidas e incertezas, estas mães e filhos chegaram assim ao Entroncamento. Não admira que de início da sensação tenha sido de “choque”, opinião unânime entre os quatro, como o nosso jornal percebe graças à ajuda de Glória Zigailova, que ajuda com a tradução.

Afinal de contas, não sabiam nada da língua e cultura portuguesa, nem tão pouco sabiam o dia de amanhã, como explica Liudmila.

Mariia concorda com a mãe e diz que não queria abandonar a Ucrânia e só queria voltar para o seu país, para a escola onde foi habituada a estar e para junto dos animais de estimação que deixou em casa. O outro jovem, Kiril, não vê a saída da Ucrânia de uma forma tão pessimista. Afinal, todos os seus amigos também fugiram do país e para si o que mais importa é poder estar com a sua mãe em paz e numa zona sem guerra.

“Nunca esperaram que os portugueses fossem tão acolhedores e que ajudassem tanto, integraram-nas na cultura portuguesa com muita satisfação, e elas não podiam esperar por isso. Correu melhor do que tinham imaginado”, é o que nos traduz Glória da consonante resposta de Liudmila e Inna à nossa pergunta se foram bem acolhidos no Entroncamento.

Conforme explica a tradutora, estas pessoas não percebiam uma única palavra em português, mas de modo intuitivo e pelo modo de apresentação das pessoas, conseguiram sentir que estas eram (e são) muito amigáveis e muito responsáveis pelas vidas dos outros. “Começaram a trazer roupas e comida só por ajuda, sem pedirem nada de volta”, traduz-nos Glória.

A esta resposta segue-se uma torrente de agradecimentos, a Maria Adelaide Dias – “uma grande ajuda” com a documentação e integração dos jovens na escola, tendo também organizado amigas, conhecidas e todas as pessoas com disponibilidade para ajudar, tendo muitas aparecido sem convite nem nada, de modo a trazerem roupas, comida ou utensílios para casa – ou a ucranianos já estabelecidos na cidade que ajudaram bastante com documentações e muitas outras coisas.

Ao “senhor Bruno”, que dizem ser uma “pessoa santa”, agradecem pela habitação que este lhes concedeu, e onde se mantêm, onde não tiveram de pagar “nem um cêntimo”, sendo que a Câmara Municipal vai estabelecer um acordo com este cidadão de modo a ajudar a pagar as despesas da casa, segundo indicaram Ludmila e Inna, que também agradecem a Teresa Martins, “uma pessoa muito simpática” que também “ajudou muito”, inclusivamente para receberem a primeira vacina contra a covid.

Quanto ao apoio da Câmara Municipal, as cidadãs ucranianas dizem que este tem sido extenso e “até demasiado”, e que mais do que tudo, as integrou num trabalho, pelo que são muito agradecidas por poderem ter um emprego e o seu próprio dinheiro.

Encontram-se neste momento a trabalhar nos serviços da Câmara Municipal, nomeadamente nas piscinas e no complexo desportivo, ajudando em todos os serviços, entre limpeza, arrumações e tudo o que é preciso, pelo que deixaram também uma palavra de agradecimento a todo o coletivo do trabalho pela integração que correu “perfeitamente”, tendo sido recebidas com imensa simpatia, amizade e ajuda.

Uma nova língua e cultura a aprender

Parte da comunidade refugiada vinda da Ucrânia é também composta por Nataliia (30 anos), o marido Nazarii (36) e a filha Sofiia (4), oriundos de Kiev. A família encontrava-se a passar férias no Chipre aquando da invasão do seu país, pelo que já nem voltaram para lá: foi assim que Nazarri não se viu impedido de ter de ficar num cenário de guerra enquanto veria a sua mulher e filha partirem.

O casal acabou entretanto o curso de Língua Portuguesa de Acolhimento (LPA) do Instituto do Emprego e Formação Profissional (IEFP), nível A1 e A2, pelo que estão agora à espera da continuação no nível B1 e B2, tendo de aguardar por mais pessoas para formar a turma. Antes deste curso, o casal, a par de outros ucranianos, tiveram aulas de português promovidas pelo município.

Nataliia já fala bem português [ver vídeo], pelo que o nosso jornal consegue realizar a entrevista sem recorrer a tradutor, tendo constatado, no entanto, que a adaptação ao português foi “muito difícil”:

“Eu estudei as primeiras palavras em abril e é muito difícil para mim, mas falo inglês e no banco, nas lojas, tenho a possibilidade de falar inglês, mas precisava de português, e agora é muito fácil para lojas, supermercados é muito bom porque agora já falo português, não muito bom, mas eles percebem”.

Mas Nataliia não se dá por satisfeita com o seu já elevado nível de português. É que Nataliia é médica e precisa de obter o nível B1/B2 para poder exercer a sua atividade profissional em Portugal, pelo que precisa de estudar mais e passar nesses exames, sem os quais não pode trabalhar e exercer na medicina.

Liudmila, Mariia, Inna e Kiril concordam entre si que após a sua chegada foi muito complicado estudar a língua portuguesa – a qual consideram muito difícil – até porque de início estudaram com uma professora portuguesa que não sabia uma única palavra em ucraniano, se bem que agora já conseguem dizer algumas palavras e se falarem para si muito devagar já conseguem perceber algumas coisas.

Agora que já estão há alguns meses e se têm habituado um pouco à cultura portuguesa, o grupo diz esta não é assim tão diferente da cultura do seu país de origem, ainda que existam algumas coisas diferentes entre as duas culturas, desde a gastronomia, à língua, música, clima ou alguns hábitos do dia a dia.

A princípio sentiam-se um pouco assustadas e chocadas com muitas coisas, mas depois “foram vendo que os portugueses são bastante simpáticos e não olham mal, de lado, são pessoas com um coração aberto para elas e que ajudam e querem ajudar. Estão a gostar disto tudo”, traduziu-nos Glória das palavras em ucraniano, sendo que a primeira coisa que chocou este grupo foi o clima português: chegaram com roupa de Inverno e logo no segundo dia já estavam vestido com roupa de verão.

Considerando também a comida nacional portuguesa como “mesmo diferente”, este grupo de refugiados quando chegou comeu comida tipicamente portuguesa, dentro daquilo que lhes ofereciam, e afirmam ter gostado muito, mas agora, tendo hipótese para isso, estão a tentar fazer mais comida típica do seu país de origem ou o mais parecidas possíveis, ainda que com produtos portugueses “e sai bastante idêntico”:

“Faltam alguns produtos que fazem muita falta, não só na mesa mas também nos organismos que foram habituados a isso. O requeijão português, por exemplo, é completamente diferente do de lá, o português é bastante salgado, enquanto que o de lá é muito mais rico em energia, calorias e gorduras, e são muito mais doces”, ouvimos da tradução, onde foi acrescentado que alguns hipermercados já vão tendo alguns produtos semelhantes, como as natas ácidas.

Já Nataliia Rodysh – que considera que em Portugal é tudo muito perto que os portugueses são muito de “coração aberto” e “extrovertidos” – revela que a comida é diferente, mas que a família ficou especialmente encantada com os produtos do mar, os quais há em abundância, como polvo, dourada, salmão ou bacalhau. Para Nataliia a comida mais diferente até agora talvez tenha sido cozido à portuguesa, “mas é bom”, disse-nos com um sorriso.

A adaptação dos mais novos

A adaptação dos jovens a um novo país e cultura é, por norma, tanto mais fácil quanto mais novos estes forem, regra que se parece confirmar com a comunidade de refugiados ucranianos no Entroncamento, segundo os entrevistados revelaram ao nosso jornal.

Para Kiril, de 15 anos, e Maria, que fez entretanto os 16 já em terras lusas, a adaptação não é assim tão fácil, mas há situações e gestos que ajudam, como nos exemplificou Maria.

O dia 13 de maio não é só o dia da aparição de Nossa Senhora de Fátima. É também dia do aniversário de Maria, que, já estando na escola, não esperava que os seus novos colegas de turma soubessem quando fazia anos. Foi portanto com lágrimas nos olhos que Maria se viu a completar 16 anos na escola, rodeada dos seus colegas “bastante simpáticos”, que lhe cantaram os parabéns e ofereceram bolo e bolachas.

Foi também na escola que tanto Maria e Kiril – que partilham a mesma turma – ficaram bastante admirados com a atitude de uma colega: durante a aula, com a ajuda de um telemóvel, a jovem ia traduzindo as informações que o professor dava em português, tentando escrever em ucraniano no quadro.

Kiril vai mais longe e diz inclusive que não foram eles que se integraram na escola, mas antes foi a escola que se integrou neles para os ajudar.

Os jovens vão para o 10º ano. Queriam entrar no curso de informática, mas este não abriu, o que os deixou muito tristes, pelo que devem ingressar no curso de educação física.

Maria, depois de escolaridade toda em Portugal quer ir para uma universidade ucraniana. Diz gostar muito de informática e design informativo, pelo que gostava de trabalhar numa empresa associada e ajudar com todas as suas possibilidades a levantar a Ucrânia das ruínas. Mas, nota, se, quando for maior de idade, ainda houver guerra, Maria diz querer ser médica militar para poder proteger a Ucrânia com as suas forças.

Kiril está a pensar mais ou menos a mesma coisa, com a diferença de que ainda não tem uma profissão escolhida. Está indeciso entre ter algum negócio próprio ou ser militar.

“O Entroncamento está a receber bem e a dar uma lição de grande maturidade na integração destas pessoas”

É esta a opinião de Jorge Faria, líder do município, que considera que no Entroncamento existe uma “sociedade solidária e também com capacidade de integrar e receber. Obviamente que há sempre algumas pessoas – e até ao nível das redes sociais – que fazem alguns comentários depreciativos relativamente às pessoas que vão chegando, mas isso faz parte, nós somos já uma comunidade urbana com mais de 20 mil pessoas, e portanto faz parte um bocado da nossa natureza urbana e do nosso crescimento enquanto cidade”, considera.

“A generalidade das pessoas arrendam casas às pessoas que chegam, convivem com elas, enquadram muitas vezes ou dando trabalho ou sendo solidárias, eu acho que aí só tenho de estar satisfeito e contente porque o Entroncamento está a dar uma resposta de grande maturidade a este número elevado de pessoas e migrantes que estão a chegar à cidade”, afirmou o presidente do município.

Jorge Faria explicou ainda que a autarquia procurou “apoiar estas pessoas que tiveram de abandonar as suas casas as suas vidas desde a primeira hora, e nesse perspetiva temos estado sempre disponíveis para acolher e atuar em conformidade”.

Esta atuação traduziu-se em proporcionar “as melhores condições possíveis tendo em conta a realidade”, o qua passou pela atribuição de habitação, alimentos, vestuário e apoio monetário a todos os agregados familiares num montante de 100 euros mensais até estes começarem a receber o apoio da Segurança Social. Atualmente apenas uma das famílias sediadas no Entroncamento não se encontra a beneficiar de RSI (Rendimento Social de Inserção), pelo que ainda mantém o apoio dos 100 euros mensais.

O apoio fez-se também no que toca à atribuição de passes para os transportes públicos enquanto os agregados não auferiam o RSI, e cujo atribuição se mantem para os jovens – da mesma forma que é atribuído às pessoas com menos de 30 anos que vivam no concelho – ou no pagamento das faturas do gás, água ou eletricidade.

A autarquia promoveu igualmente um curso de língua portuguesa inicialmente em colaboração com o Centro de Línguas do Entroncamento, numa fase inicial em que o Instituto de Emprego não estava organizado nesse sentido, sendo que neste momento se encontra a funcionar esse curso que teve seguimento no Instituto de Emprego e Formação Profissional (IEFP), em instalações cedidas pela Câmara Municipal.

Ao nível da empregabilidade, o município conta com três mulheres ucranianas a trabalhar na Câmara como CEI (Contratos de Emprego de Inserção), tentando também agilizar ofertas de emprego com empresas do concelho, mas não de uma “forma abrupta” até porque “estas pessoas quando chegaram, a maior parte delas vinha de um quadro de guerra, com um conjunto de problemas e com os seus filhos, e esperámos que as pessoas se fossem enquadrando e depois gradualmente vamos tentando apoiar e tentando encontrar soluções de emprego na região”, explicou Jorge Faria, dando conta de que uma das pessoas que já voltou à Ucrânia estava já a trabalhar numa empresa na sua área de formação de engenharia civil.

“Houve logo um esforço inicial de todos os miúdos serem inseridos na escola – há aqui também que dizê-lo que com um esforço enorme por parte do Agrupamento, na integração e no acompanhamento destes miúdos, que a maior parte deles não sabia uma palavra em português – mas que, até por isso, a integração foi logo a educação e depois a integração na vida do dia-a-dia”, disse Jorge Faria, acrescentando que também são proporcionados apoios à educação, à saúde – quer com a colaboração da Santa Casa, do CEDE (Centro Dentário do Entroncamento), do CLDS ou da Cáritas.

“Ou seja, procurámos enquadrar todas estas pessoas na maior normalidade possível”, sendo que neste momento a autarquia se encontra a desenvolver os processos de arrendamento de casas ao abrigo do programa Porta de Entrada do IHRU (Instituto da Habitação e da Reabilitação Urbana), pelo que “de forma paulatina, sustentada, nós enquadrámos, apoiámos e estamos a enquadrar as pessoas que tiveram de fugir de casa e que vieram viver connosco”, concluiu o autarca.

Outros artigos

Top Articles

You might also like

Latest Posts

Article information

Author: Otha Schamberger

Last Updated: 12/06/2022

Views: 5332

Rating: 4.4 / 5 (75 voted)

Reviews: 90% of readers found this page helpful

Author information

Name: Otha Schamberger

Birthday: 1999-08-15

Address: Suite 490 606 Hammes Ferry, Carterhaven, IL 62290

Phone: +8557035444877

Job: Forward IT Agent

Hobby: Fishing, Flying, Jewelry making, Digital arts, Sand art, Parkour, tabletop games

Introduction: My name is Otha Schamberger, I am a vast, good, healthy, cheerful, energetic, gorgeous, magnificent person who loves writing and wants to share my knowledge and understanding with you.